A Desumanidade em Tempos de Conexão Digital
Vivemos numa era em que a proximidade virtual nunca foi tão evidente, e, paradoxalmente, a distância humana nunca foi tão profunda. As redes sociais, criadas para aproximar pessoas, converteram-se muitas vezes em palcos de julgamento, competição e ofensa gratuita. A ofensa voluntária tornou-se um reflexo de um egocentrismo cada vez mais crescente, em que a dor do outro é invisível e a busca por atenção sobrepõe-se ao respeito.
É tão assustador (a meu ver) como, por trás de um ecrã, dissove-se a consciência de que existem outros seres humanos do outro lado, com histórias, fragilidades e emoções. A facilidade de digitar uma frase agressiva ou lançar um crítica cruel substitui o exercício da empatia, e a humanidade foi sendo silenciada pelo ruído do ego, de cada um.
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Na minha humilde opinião, a pandemia da Covid-19 poderia ter sido um marco de viragem. Estivemos isolados, fomos confrontados com a nossa vulnerabilidade, experimentámos coletivamente a fragilidade da vida. Parecia inevitável que daí pudesse brotar uma sociedade mais solidária, mais consciente da importância do cuidado e da palavra. No entanto, sete anos decorridos, o que vemos é o contrário: discursos de ódio, sem dó nem piedade multiplicam-se, a intolerância cresce e a humanidade parece ter ficado esquecida nas estatísticas diárias de casos e mortes. Mas, afinal, para onde caminhamos?
Também nas grandes causas internacionais vemos como a polarização domina. Figuras públicas, líderes e cidadãos comuns assumem posições diferentes, cada um defendendo o que sente ser justo. Uns apoiam uma causa, outros seguem por caminhos opostos e está tudo bem. No fundo, cada um segue o seu coração e essa escolha é livre, mas também deixa marcas. Apoiar uma causa não é apenas um ato político, é sim um reflexo da humanidade que escolhemos expressar.
A questão que se impõe é o que nos resta de humano quando banalizamos a dor do outro? Quando odender torna-se um hábito, e a empatia, uma raridade? Talvez a grande lição a reter seja perceber que a tecnologia em si não é desumana, mas o uso que fazemos dela reveza a fragilidade da nossa ética no coletivo.
Fazendo jus à revista que, por estes dias, está em exibição no teatro Maria Vitória "Pára, Que É Urgente!" se queremos reconstruir humanidade, precisamos reeducar a forma como nos relacionamos online, aprender a ouvir, a respeitar e a compreender. Tenho para mim, que não se trata de apagar diferenças, mas lembrar que o valor da vida não se mede com curtidas, partilhas ou comentários ofensivos, mas sim na capacidade de nos reconhecermos no outro.
A pandemia mostrou-nos que somos frágeis, todavia, não nos ensinou (ou não quisemos aprender) que também somos responsáveis pelo impacto que deixamos nos outros. O desafio permanece e é contínuo: resgatar a humanidade perdida num mundo que confunde conexão com empatia.
Está tudo bem em ter pontos de vista diferentes, é possível expressarmos a nossa opinião mesmo que contrária, mas sejamos empáticos com os outros.